O Assassino de Whitechapell.
Quem foi Jack, o Estripador? Quais motivos justificam o banho de sangue que promoveu na pudica Inglaterra vitoriana? Se mais de um século não foi tempo suficiente para que a identidade e as razões do assassino de Whitechapell fossem reveladas, não seria o passar dos anos o agente capaz de diminuir o suspense e o fascínio que, até hoje, emanam da maior crônica policial de todos os tempos. Incontáveis relatos já foram publicados a respeito daqueles crimes e um sem-número de teorias já foi levantado sem, no entanto, esclarecer satisfatoriamente os detalhes da violenta morte das prostitutas no East End londrino de 1888. Todas as tentativas de trazer luz a acontecimentos tão obscuros só colaboram para que o mistério de Jack chegue ao ano 2004 com inabalado frescor. Escrito por Alan Moore e desenhado por Eddie Campbell, "Do Inferno" engorda a já extensa lista de títulos dedicados aos crimes do Estripador mas, ao contrário de defender uma teoria própria, faz uma síntese coesa e extremamente convincente das muitas teses conspiratórias que tentam explicar o quem-como-por quê dos homicídios. Lançada agora no Brasil pela Via Lettera, a obra em quadrinhos não é o ponto mais alto da trajetória de genialidade de Moore, mas flagra o momento em que o recluso criador de "Watchmen" (esta sim, sua obra-prima) se supera mais uma vez como contador de histórias. O roteirista reveste o mito de Jack com uma aura de envolvente veracidade, fazendo com que a lenda circule entre a realidade e a suposição, entre o fato e o boato, entre a história e a ficção, "se é que algo pode ser plenamente confirmado neste pântano de meias-verdades, rumores insistentes e mentiras descabidas", lembra Moore no delicioso apêndice do primeiro dos quatro volumes que a editora brasileira pretende lançar até dezembro. O realismo que transforma "Do Inferno" em um trabalho de inquietante leitura é fruto da profunda pesquisa bibliográfica feita por Moore e Campbell durante a criação dos 16 capítulos que compõem a história. Além de revirar registros forenses, fuçar livros de arquitetura e história antiga à cata de referências e buscar material iconográfico em mapas e fotos de época, os criadores travam ousado diálogo com os autores de diversas teses que explicam os assassinatos de Whitechapell, citando vasta bibliografia em um detalhadíssimo apêndice de 28 páginas. O próprio Moore assume que o livro "Jack the Ripper: The Final Solution", escrito por Stephen Knight, apresenta uma teoria "duramente criticada e ridicularizada", mas utiliza-o mesmo assim como fio condutor de sua síntese quadrinística. Segundo a história de Knight, acatada pelo roteirista inglês, a série de homicídios seria a reação da família real contra a chantagem de um grupo de prostitutas do East End. A trama teria início com o nascimento de Alice Margaret, filha do casamento secreto do príncipe Eddie (Albert Victor Edward) com Anne Crook, balconista de uma loja de doces. Avó de Eddie, a rainha Vitória teria encarregado o maçom William Withey Gull - seu médico favorito - de confinar a plebéia em um manicômio, pondo fim a ameaça de que a indesejada herdeira do trono fosse conhecida pelo público. Na versão de Knight, as prostitutas amigas de Anne estariam sendo extorquidas por um grupo de arruaceiros e decidiram exigir dinheiro da realeza em troca do silêncio sobre a pequena Alice e o paradeiro de sua mãe. Vitória, acuada, teria incumbido Gull de tomar atitudes mais incisivas - literalmente - e acabar com as chantagistas: é ele o Estripador desmascarado por Knight e confirmado nos quadrinhos por Moore e Campbell. Mas não é só o livro de Knight que fornece pistas para a construção de "Do Inferno". Moore também retira informações preciosas de "The Complete Jack the Ripper", livro escrito por Donald Rumbelow, de "White Chappel, Scarlet Tracings", assinado por Iain Sinclair, e de "Jack the Ripper: The Uncensored Facts", tese de Paul Begg (que também escreveu, em parceria com Martin Fido e Keith Skinner, o didático "Jack the Ripper A-Z"), entre outras fontes. É esse cruzamento de hipóteses que une as pontas soltas de uma história ainda não esclarecida oficialmente e confere respeito à obra da dupla, uma sensação que se insinua inicialmente na leitura dos quadrinhos e que se acentua, depois, enquanto o leitor vai mergulhando nas minúcias técnicas reveladas por Moore em seu apêndice. "'Do Inferno' foi mais exaustivamente pesquisado em termos visuais do que de conteúdo", explica o argumentista, trazendo à tona também o trabalho do colega. "Basta dizer que qualquer apêndice minimamente adequado listando as fontes de Campbell da mesma maneira como estou fazendo com as minhas seria duas vezes maior do que esta monstruosidade, o que, em si, parece ocupar o dobro do espaço da obra à qual se refere". Amparado por fotos antigas, o lápis de Campbell reconstitui com rigor os rostos dos personagens envolvidos e os cenários onde os crimes aconteceram. Esse apuro técnico em preto-e-branco se opõe radicalmente à simplicidade com que o artista australiano desenha os assuntos secundários, um estilo rápido e sugestivo que beira o desleixo mas em nenhum momento ameaça a peculiar beleza da obra. Muito pelo contrário: o traço apressado de Campbell, suas formas toscas e sua predileção por cenas escuras reforçam o clima de mistério, de conspiração e segredo que transpiram por toda a história, transformando aquilo que era um enredo policial em uma aterradora narrativa gótica resgatada das brumas londrinas. Além de se avizinhar perigosamente da realidade, "Do Inferno" evidencia o estilo literário já consagrado por Moore em "Watchmen" ao abrir espaço para narrativas paralelas, momentos em que o roteirista aproveita para brindar o leitor com uma magnífica aula de arquitetura, com fragmentos de rituais maçônicos e passeios esclarecedores pela mitologia. É tênue a fronteira delimitada pelo escritor para separar o mundo cotidiano - ilustrado pelo "varal" para o sono dos sem-teto, pelo sexo feito em pé nos becos de Londres e pelas gírias de rua da época - do mundo insólito e misterioso representado por John Merrick, "o homem elefante", pela eficiência das facas Liston e pelo momento em que Alois e Klara Hitler concebiam, na Áustria, seu filho Adolf. Em 1995, "Do Inferno" rendeu a Moore os prêmios Eisner e Harvey de Melhor Roteirista, além de um Harvey na categoria de Melhor Série Continuada. Reeditada no exterior em uma única edição de quase 600 páginas pela Eddie Campbell Comics, a saga recebeu em final de abril o prêmio Harvey na categoria de Melhor Álbum Gráfico de Obra Publicada Previamente e, agora, concorre ao Eisner de Melhor Álbum Gráfico - Republicação deste ano. Os prêmios atestam a qualidade de algo que fala por si, um trabalho minucioso e de grande poder de sedução que, se não mostra uma versão muito próxima da verdade para o mito de Jack, no mínimo apresenta uma história maravilhosamente bem desenvolvida. A melhor delas - é possível dizer, ainda que isso dê margem a muitas discussões - porque contada muito bem.
Escrito por Thiago Leal às 10h57
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